Os Médicos e Nossos Monstros

 
Essa cronica é dedicado a todos que estão com o coração pequenininho
rezando, torcendo, pedindo pela saúde e recuperação de um ente querido. Muita força para todos nós <3

 

Outro dia me disseram: tá triste, olhe no espelho. Elogio ou ironia, lá fui eu, dar uma espiada. Quem sabe esperando um espelho mágico no espelho meu.

Preciso dizer que o espelho não me disse nada?

Enquanto eu escovava os dentes (será que foi por isso que ele não falou comigo, era para olhar em um momento de maior glamour?) lembrei de uma coisa. A Iridiologia, observa nossa íris (os risquinhos da nossa ‘menina dos olhos’ a bolinha colorida). A análise daquele desenho, único, pessoal e intransferível, é um tipo de diagnóstico na chamada Medicina Alternativa.

Aqui em casa estamos passando por MAIS UM momento bem delicado de saúde na nossa família e eu, que pessoalmente ando uma verdadeira ‘metralhadora de emoções’, de repente me vi tocada com aquela constatação (que você pode chamar de, huh… idiota, vai). Mas não é algo de maravilho, alguém olhar dentro de seus olhos e saber um pouco do que está acontecendo no seu corpo?!

Que corpo falante é esse que eu carrego, que não fala comigo, mas que entrega o jogo pra qualquer um que saiba decifrar o código da menina que fica dentro da menina?

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Com isso fui me lembrando de outras coisas. A acupuntura trata o paciente lhe aplicando agulhas. Seguindo um mapa invisível no corpo, onde cada ponto corresponde a um órgão. O equilíbrio dos pontos é a saúde do indivíduo. Tem ainda a delicadeza de sementinhas que eles colocam aqui e ali, semeando equilíbrio.

Do-In. Com a ponta dos dedos, pressionam pontos no nosso corpo, pausadamente. Lembrei de um dia em que minha cabeça estava decidida a estourar. A dor que começara miudinha tomara proporções de dinossáuricas e já não tinha um analgésico que eu não tivesse tomado nas ultimas horas. Uma moça que trabalhava comigo segurou meu braço e começou a pressionar dois pontos de uma vez só, perto do cotovelo. Dava uma dorzinha chata, quase cãibra. E eu lá, repetindo que não estava melhorando nada, aliás, agora eu tinha duas dores, uma na cabeça e outra no braço. Não estou sentindo nada, não estou sentindo nada, quando percebi, cadê a dor? Sumira, sem Doril. Daí descobri que tinha um ponto específico pra cada mazela e minhas cólicas – além do meu ceticismo – diminuíram sensivelmente, desde então.

De um lado a medicina tradicional, seus Pronto Socorros de brancura indefectível, assim como a fisionomia de médicos, atendentes e suas falas decoradas, seus olhos que nunca olham nos nossos e me dão um misto de revolta, melancolia e impotência. A luz fria é a iluminação perfeita para o ambiente onde tudo é debilitado: nossa saúde, nossa dignidade, a humanidade de quem está nos atendendo. O Pronto Socorro é onde a gentileza vai para morrer.

Por outro lado, o que chamam de Medicina Alternativa não suporta a urgência, muito menos a emergência, do corpo humano. Não é mesmo uma ironia, que não exista alternativa à dor pungente?

A gente cresce ouvindo que o tempo é remédio pra tudo. Quer coisa mais orgânica, mais natureba que isso? Eu não sei se ele cura tudo, não. E olha que, em matéria de tempo, já tenho algum pra constar no meu prontuário.

Só que não existe alternativa pro tempo. Doce ou amargo, tem que engolir e pronto. E às vezes, o tempo dói mais que injeção.



 
22.06.2015
Crônicas
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